1 de fevereiro de 2012

Eu Sou A Ferida E Tu És O Deserto...



abraço o teu rosto transparente com as duas mãos que
tenho, coração ferida. és de água e dos olhos escorres-me
como eu. de olhos abertos, marítimos de luz.
oiço a dor no fundo dos teus gestos. um sereno rio
quente
viajamos para dentro um do outro, para onde não
queremos ser nus, e mergulhamos no tempo cortado.
abraço o teu rosto quando tinhas oitos anos e muitos
Invernos crucificados no segredo, as paisagens rasgadas, a
fonte da vida gelada, e viajamos dentro das nossas mãos.
penetramos o silêncio um do outro. nus, magoados de
morte, na solidão primeira.
o teu rosto, disforme de sombras, e eu misturando o
meu rosto nele,
fazendo o meu rosto no teu rosto, sulco a sulco. corre a
água vermelha nos olhos abertos, marítimos de luz.
deixa-me porque sou eu a morrer
e as mãos tocam o silêncio gritante a ferida-tudo, a
solidão do corte.
recebe o meu corpo, quero apenas a tua morte inteira
beijo os teus desertos de sangue um a um, a imagem da
pedra feita vida jorrando, vermelha, tu és o meu espaço e o
meu tempo.
eu sou a ferida e tu és o deserto
estou de olhos abertos pelo sono dos dias fora, pelas
manhãs dentro, pelo golpe vivo.
crucificados um no outro, rebentando fontes por onde
morríamos.

Pedro Sena-Lino

Bocas OnLine

3 comentários:

QUIM disse...

viajamos para dentro um do outro, para onde não queremos ser nus..
uiiaa..forte..ri-me quando vi a imagem.porque lembrei-me do desafio..rs..huumm..mas acho que te responderei ao desafio no the adjustment segunda feira...rs..bj boa noite..

Seraphyta disse...

Quim,

Ficarei a aguardar o desafio...

Obrigada pelo comentário e continuação de um bom dia.

Beijos

Anónimo disse...

Desta geração (relativamente) mais recente de poetas, o Pedro Sena-Lino é um dos que não me diz muito. Um ou outro poema, pouco mais que isso. Tenho a prosa para ser lida, o 333 em lista de espera mas ainda não me aventurei. Ficam-me umas frases soltas «não é tarde demais para uma manhã que foi a enterrar em tantas noites»